Cadernos de Estudos Sefarditas

1º Semestre 2016

16

ISSN: 1645-1910

Parte I: Dossier Diáspora Sefardita: geografias, culturas e sociedades

Nicole Abravanel (Université de Picardie Jules Verne) – L’espace ou le personnage caché dans la Consolation aux tribulations d’Israël de Samuel Usque

Cadernos de Estudos Sefarditas 16 (2017): 11-36

palavras-chave

Espacialidade; Historicidade; Teleologia; Messianismo

resumo

Este artigo visa apresentar uma nova abordagem sobre a obra Consolação às tribulações de Israel de Samuel Usque, interpretando-a não como uma teleologia da história, mas sim uma teleologia do espaço.
Esta obra-prima da literatura portuguesa foi concebida como um texto histórico ou messiânico em torno do trauma da expulsão dos judeus da Península Ibérica. O próprio autor recorre a três figuras da temporalidade – a história, a memória e a consolação –, aparentemente inscrevendo a narrativa, de forma explícita, na ordem do tempo. A função da espacialidade, determinante para uma Diáspora em formação, não tem sido valorizada. No entanto, esta encontra-se no coração do texto e no seu enquadramento (invocação dos continentes, consolações humanas, relatos das viagens). O exílio retorna e torna-se uma teodiceia. Os lugares do exílio (em Itália ou na Turquia) são bençãos. Samuel Usque é um mercador letrado. A estrutura em rede dos espaços dos judeo-conversos impregna a sua obra, reflectindo-se nela e conferindo-lhe unidade.

Maria Teresa Gomes Cordeiro (investigadora independente) – A trajectória social
da família de André Reinoso. Poder, trânsitos e integração

Cadernos de Estudos Sefarditas 16 (2017): 37-57

palavras-chave

Inquisição; Cristãos-novos; Diáspora; Redes clientelares; Assimilação

resumo

Conhecer a relevância do contributo sefardita no repositório patrimonial português é um trabalho essencial para clarear certas zonas de penumbra do nosso retrato identitário.
As biografias de conjunto (através dos recursos da prosopografia), assim como o acesso às trajectórias sociais das famílias, revelam-se meios privilegiados para conhecer grupos sociais específicos. É o caso das comunidades cristãs-novas. Falaremos da família do pintor proto-barroco André Reinoso (act. 1610-1650), cristão-novo cuja filiação nos levará a terras do reino vizinho, percorrendo os trilhos da raia até chegar a Viseu. Nesta cidade, instala-se o seu avô Alonso, o castelhano. A família aumenta e prospera. Alguns saem da cidade, outros ainda do reino. Mas os que ficam ocupam um espaço importante nas relações de poder local, reflectidas na centralidade das suas residências e lojas. São mercadores e rendeiros, médicos e advogados. Até que, com a repressão inquisitorial de 1626/29, elementos da família são obrigados ao cárcere e à partida. Uma nova diáspora desenha-se para o Velho e o Novo Mundo, abrigada na confiança em antigas redes clientelares e nas facilidades criadas por tempos de União Ibérica.

Javier Leibiusky (INALCO – Institut National de Langues et Civilisations Orientales, Paris) – Villa Crespo: le quartier judéo-espagnol
de Buenos Aires et son Café Izmir

Cadernos de Estudos Sefarditas 16 (2017): 59-76

palavras-chave

Argentina, Buenos Aires, Judeu-espanhol, Imigração, Tortoni, Izmir

resumo

Este artigo resume a história de uma imigração quase invisível, a dos judeus-espanhóis otomanos rumo a Buenos Aires no início do século XX. O artigo traça resumidamente as razões pelas quais a Argentina foi escolhida como destino, e para o estabelecimento nas vizinhanças de Villa Crespo, que se tornou o bairro judeu-espanhol de Buenos Aires, com suas sinagogas, associações e o mítico café Izmir, gerenciado por Alejandro Alboger, um judeu originário de Izmir. O artigo descreve o ambiente particular desse lugar, assim como a personalidade particular de seu proprietário, bem como a ligação histórica desse lugar com um outro café mítico de Buenos Aires, o café Tortoni. Finalmente, como diversas testemunhas relatam em suas entrevistas, esta imigração para a Argentina foi para os judeus-espanhóis como que um retorno à Sefarad, à Espanha medieval que restou gravada no imaginário colectivo.

Ora (Rodrigue) Schwarzwald
(Bar-Ilan University) – Ladino Versions of Quién supiense (Eḥad Mi Yodea)

Cadernos de Estudos Sefarditas 16 (2017): 77-99

palavras-chave

Canções cumulativas; Canções de Páscoa; Poesia paralitúrgica; Poesia religiosa em Ladino; Poesia religiosa em Haketía; Conceito judaico

resumo

Eḥad Mi Yodea é uma canção cumulativa hebraica constituída por questões sobre números e respostas usando conceitos judaicos. A comparação das vinte e três versões em ladino da canção Quién supiense com a versão hebraica revela diferenças em vários aspectos: 1. as frases introdutórias e conclusivas são formuladas independentemente; 2. a dimensão da canção varia em ladino; 3. os conteúdos de algumas respostas diferem da versão hebraica; 4. existem algumas variantes linguísticas. A tradição de cantar esta canção pela Páscoa é relativamente recente. A questão da originalidade das canções hebraica e ladinas já foi levantada antes. Tendo como base versões da canção em espanhol antigo e catalão, tem sido assumido que a versão ladina teria estado na origem da hebraica. A minha opinião é que as duas versões podem ter sido desenvolvidas independentemente, embora não haja dúvida de que as versões em ladino são anteriores à hebraica.

Line Amselem (Université de Valenciennes et du Hainaut Cambrésis) – Yaḥasrá de Solly Lévy (Montréal, 1992). Première oeuvre de fiction publiée en ḥaketía

Cadernos de Estudos Sefarditas 16 (2017): 101-112

palavras-chave

Judeu-espanhol de Marrocos; Edição; Quebeque; Multiculturalismo, Solly Lévy

resumo

A primeira obra de ficção editada em judeu-espanhol de Marrocos é Yaḥasrá. Escenas ḥaquetiescas de Solly Lévy (Montreal, EDIJ, 1992). O paratexto permite a reflexão sobre as condições históricas, políticas e sociais que tornaram possível esta publicação.
Estudamos aqui o papel das instituições envolvidas nas celebrações de 1992 bem como o envolvimento pessoal do autor na comunidade sefardita do Quebeque. O livro é apresentado como uma testemunha, um tema de estudo académico ou uma verdadeira criação literária, os textos introdutórios divergem e, se o autor escolhe uma estética literária clássica para apresentar a sua abordagem, a questão política da identidade ressurge ao fim do livro para dar a esta primeira ficção editada em ḥaketía uma dimensão solene e militante.

Parte II: Crónicas e entrevistas

Ângelo Adriano Faria de Assis, Pollyana Gouveia Mendonça Muniz, Yllan de Matos – Ao mestre, com carinho: celebrar Ronaldo Vainfas e sua obra

Bruno Feitler – Crônica do Simpósio Historia de las Inquisiciones (Córdoba, Argentina, 15, 16 e 17 de março de 2017)

Sérgio Valente – Entrevista a Fernando Pflüger

Parte III: Recensões

João Castela Oliveira – Bruno Feitler, The Imaginary Synagogue: Anti-Jewish Literature in the Portuguese Early Modern World (16th-18th Centuries), Leiden, Brill, 2015

Susana Bastos Mateus – Béatrice Perez, Les Marchands de Séville. Une société inquiète (XVe – XVIe siècles), Paris, PUPS, 2016

Carla Vieira – Ronnie Perelis, Narratives from the Sephardic Atlantic: blood and faith, Bloomington, Indiana University Press, 2016