Cadernos de Estudos Sefarditas

2º Semestre 2017

17

ISSN: 1645-1910

Parte I: Artigos

Yossef Charvit (Bar-Ilan University) – Rabbi Maurice Eisenbeth: The Pioneer of Sephardi Onomastics

Cadernos de Estudos Sefarditas 17 (2017): 11-25

palavras-chave

Rabbi Maurice Eisenbeth; Jewish onomastics; North African Jewry; Algerian Jewry; Sephardi Diaspora.

resumo

Rabbi Maurice Eisenbeth was born in Paris in 1883, attended the Paris Rabbinic Seminary from 1902 to 1908 and subsequently accepted his first rabbinic position in Sedan (1911). After serving as a military chaplain in the First World War, he was appointed Chief Rabbi of Constantine in 1928 and of Algiers in 1932. As of 1941, he represented all Algerian Jewry.

He was very attracted to the onomastic, demographic and historical research of the Jews of North Africa and wrote several books on these subjects. His study of Jewish onomastics may well constitute the inception of independent research on North African historiography according it immeasurable significance of both a cultural and historical nature.
While R. Eisenbeth did not consider himself a full-time researcher, his interest in local roots and respect for authenticity reflected his well-honed professional skills as an academic scholar. Although he felt no obligation to carry out in-depth research or to what he called “the minutiae of the ivory tower,” he definitely consulted and cited contemporary research and other scholarly sources. He provided a sound basis for linguistic, ethnographic and geographic research on North African Jews and explored the reciprocal relations obtaining among the different Jewish communities throughout North Africa.

Annette M. Boeckler (ZIID – Zürich Institute for Interreligious Dialogue) – A influência portuguesa sobre o Judaísmo Progressista: Um aspecto negligenciado

Cadernos de Estudos Sefarditas 17 (2017): 27-53

palavras-chave

Liturgia judaica; Hamburg Tempel; Judaísmo Progressista; Piyyutím sefarditas; Liturgia hispano-portuguesa

resumo

O impacto da Diáspora Sefardita na origem do Judaísmo Progressista (designação geral para sinagogas “reformistas” e “liberais”) tem vindo a ser negligenciado. Foi em Hamburgo, a única cidade com uma comunidade hispano-portuguesa na Alemanha, onde, em 1817, o Hamburg Tempel foi fundado. Este artigo pretende mostrar que a sua liturgia era fortemente influenciada pelas tradições sefarditas ocidentais. Nos Estados Unidos da América, a primeira liturgia reformista surgiu dentro de uma comunidade portuguesa, onde uma “Sociedade Reformista para os Israelitas” foi instituída em 1824, a qual acabou por cair no esquecimento. No Reino Unido, a primeira sinagoga progressista foi fundada por judeus hispano-portugueses. Rapidamente, o Judaísmo Progressista adaptou-se à tradição maioritária nos respectivos países e tornou-se mais asquenazita. Porém, até aos dias de hoje, alguns dos traços mais característicos da liturgia judaica progressista são de origem portuguesa.

Inês Thomas Almeida (INET-md, FCSH, Universidade NOVA de Lisboa) – “O meu pai era judeu português”: as raízes portuguesas de Henriette Herz de Lemos como motor da revolução intelectual berlinense à volta de 1800

Cadernos de Estudos Sefarditas 17 (2017): 55-84

palavras-chave

Pré-Romantismo Alemão; Salões de Berlim; Sefarditas; Diáspora; Benveniste de Lemos

resumo

O“O meu pai era judeu português” – assim começam as memórias de Henriette Herz, nascida Henriette Benveniste de Lemos, pioneira da cultura de salão berlinense e uma das mais fascinantes figuras intelectuais femininas da Alemanha do fim do século XVIII. Esta salonnière fundou, em 1780, o primeiro salão literário de Berlim, onde recebeu alguns dos nomes mais marcantes da época, discutiu e difundiu as correntes da vanguarda intelectual, e foi, entre outros, professora de Wilhelm von Humboldt, fundador da Universidade de Berlim, e do seu irmão, o célebre naturalista Alexander von Humboldt. Neste artigo, defende-se que, mais do que um acaso da História, por uma série de circunstâncias, as raízes portuguesas de Henriette Herz foram determinantes na sua acção impulsionadora do movimento pré-romântico e das importantes transformações sociais e intelectuais do pensamento alemão à volta de 1800.

Sandra Neves Silva (CHAM-FCSH/NOVA-UAc) – “Não há nada novo debaixo do Sol”:
Aspectos da Visão Médico-Astrológica
de Manuel Bocarro Francês e Rosales

Cadernos de Estudos Sefarditas 17 (2017): 85-99

palavras-chave

Medicina; Galenismo; Transmissão Divina; Influência Celeste; Astrologia

resumo

O presente artigo aborda aspectos da visão médico-astrológica de Manuel Bocarro Francês e Rosales, físico cristão-novo nascido em Lisboa, que se converteu à ortodoxia judaica quando foi viver para Hamburgo. Graduado pelas universidades castelhanas de Alcalá de Henares e Sigüenza, Bocarro é um defensor do galenismo, professando ao mesmo tempo a ideia de que a origem da Medicina remonta a Deus, que a transmitira a Adão já depois da queda deste, para o auxiliar na sua condição miserável. Por outro lado, na sua prática médica, Bocarro concede grande relevância à teoria da influência celeste sobre o corpo humano, pois, como que procurando levar à perfeição a matéria astrológica, propõe que, pelas estrelas, se possa conhecer, entre outras coisas, o temperamento, debilidades físicas e qualidades anímicas admiráveis do indivíduo, bem como a ocasião propícia para a aplicação de tratamentos.

Leonor Dias Garcia (CIDEHUS-UÉ) – Comissários e notários do Santo Ofício naturais e moradores em Braga (1700-1773): perfil socials

Cadernos de Estudos Sefarditas 17 (2017): 101-137

palavras-chave

Inquisição; Braga; notário; comissário.

resumo

Neste trabalho, pretende-se dar uma perspectiva geral sobre o perfil social dos notários e comissários ao serviço do Santo Ofício português, naturais e/ou moradores na cidade de Braga e seu termo, no período compreendido entre os anos de 1700 e 1773.
Os principais objectivos são: identificar os agentes, traçar o seu perfil social e detectar eventuais condicionantes na sua admissão ao tribunal. Pretende-se, assim, responder às seguintes questões: Quem e quantos? Quais as suas origens? Como subsistiam? Que tipo de trabalho exerciam? O facto de serem eclesiásticos facilitou-lhes o acesso à carreira inquisitorial, ou podiam existir condicionantes de outra ordem?
Através de uma metodologia de trabalho essencialmente prosopográfica, baseada nas habilitações do Santo Ofício (única fonte consultada para este estudo), analisaram-se as características socioeconómicas de notários e comissários, no momento da sua habilitação: ascendência e limpeza de sangue, estatuto social e “vida e costumes”, capacidade económica, formação académica, cargos que desempenhavam antes de se candidatarem ao Santo Ofício, dificuldades na aprovação das diligências, etc.. O critério de base teve a ver com o nascimento e/ou morada na cidade de Braga e seu termo.
A partir do tratamento e análise dos dados na base de dados SPARES, concluiu-se que os dois grupos de agentes tinham perfis sociais diferentes, existindo uma certa desigualdade entre ambos, principalmente no que diz respeito aos níveis de rendimento e ao estatuto social.

Parte II: Crónicas e entrevista

Alessandra Dolce – Odmar Braga e os seus Rekodros: uma poesia de longe em uma língua ainda viva

Angelo Adriano Faria de Assis – Criptojudaísmo tardio e identidades judaicas

Natalia Urra Jaque – Seminario Estudios Inquisitoriales en América. Discursos, Métodos y Representaciones

Parte III: Recensões

James Nelson Novoa – Alisa Meyuhas Ginio, Between Sepharad and Jerusalem. History, Identity and Memory of the Sephardim, Leiden, Brill, 2014

Carla Vieira – Daniel Jütte, The Age of Secrecy. Jews, Christians, and the Economy of Secrets, 1400-1800, New Haven, Yale University Press, 2015

Adriana Dantas Reis – Suzana Maria de Sousa Santos Severs, Além da Exclusão: a convivência entre cristãos-novos e cristãos-velhos na Bahia setecentista, Salvador, EDUNEB, 2016

Susana Bastos Mateus – Ana E. Schaposchnik, The Lima Inquisition. The Plight of Crypto-Jews in Seventeenth-Century Peru, Madison, The University of Wisconsin Press, 2015